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Insubordinação Mental

Posted 12 ago 2010 — by Sabrina Mix
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Hoje é comemorado o Dia do Jovem. Para prestar minha homenagem ao futuro deste país, deixo um texto extraído do livro P.S. do P.S. do P.S., de Marcelo Pires.

MANUEL BANDEIRA, um dos nossos maiores poetas, nasceu em Recife, em 1886. Em 1902, publica o seu primeiro poema, um soneto, na primeira página do Correio da Manhã (Rio de Janeiro). Manuel tinha 16 anos. Exato: 16 anos. O soneto acabava assim:

Enrubescer teu corpo ao férvido calor
dos meus beijos de fogo a cobrir-te em cascata
ai, meus sonhos de amor!
ai, meus sonhos de amor!

Bandeira conta que “quando eu tinha os meus quinze anos e traduzia (na classe de grego) a Ciropedia fiquei encantado com esse nome de uma cidadezinha fundada por Ciro, o Antigo, nas montanhas do sul da Pérsia. A minha imaginação de adolescente começou a trabalhar, e eu vi Pasárgada e vivi alguns anos em Pasárgada”. Ou seja, foi da imaginação de adolescente que, em 1926, o poeta fez um dos poemas mais famosos da língua portuguesa: “Vou-me embora para Pasárgada”.

NELSON RODRIGUES, um dos nossos maiores dramaturgos (senão o maior), quando tinha 14 anos (exato: 14 anos) criou o seu próprio jornalzinho – A Alma Infantil. Nelson era filho de jornalista – Mario Rodrigues – e utilizou as oficinas do jornal do seu pai, no Rio de Janeiro, o jornal A Manhã, para escrever e imprimir um tablóide de quatro páginas. Adolescente, mal saindo da puberdade, Nelson Rodrigues já exigia, entre outras coisas, o fechamento da Academia Brasileira de Letras pela polícia.

VINÍCIUS DE MORAES, outro grande poeta brasileiro e um dos maiores letristas da música popular brasileira, nasceu em 1913. Em 1922 (Vinícius tinha 9, exato, apenas 9 anos) escreveu um poema de amor para a sua primeira grande paixão, a menina Cacy:

“Oh quantas saudades quantas
de ti meu bem lá se vão
como uma garça voando
cerrando o meu coração.”

Muitos anos depois, em 1950, Vinícius admitiu que furtou o poeminha dos escritos poéticos do seu pai, Clodoaldo. Mas esse furto não significava falta de talento. Pelo contrário. Aos 16 anos, em 1929, Vinícius já reunia os primeiros versos – daí sim, de sua autoria – em um caderno, chamado, prematuramente, de Obras Completas.

CAETANO VELOSO, um dos maiores nomes da MPB, nasceu em 1942, em Santo Amaro da Purificação, Bahia. Aos 17 anos (exatamente: 17 anos), Caetano muda para Salvador. E escreve a música para uma peça de teatro que estava sendo montada por um amigo seu. Todo mundo gostou da trilha de Caetano. E, devido a isso, como conta o próprio Caetano, foi apresentado a outro rapaz, da mesma idade que ele, Read More

Papai é o maior

Posted 20 jun 2010 — by Sabrina Mix
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O texto abaixo foi escrito por Marcelo Pires e está em seu livro P.S. do P.S. do P.S., publicado em 1995. Como estamos em meio à Copa do Mundo e hoje também é comemorado o Dia dos Pais na África do Sul, nada mais justo que publicar este texto aqui. Espero que gostem!

Tem coisas que, para uma menina, são difíceis de entender. A importância do futebol na vida de um filho e de um pai provavelmente é uma delas.

Pai é um cara que, numa sociedade machista que nem a nossa, tá sempre fora de casa, tá sempre dando duro pra segurar as pontas da família. Claro que isso está mudando e, hoje em dia, cada vez mais, é o pai e a mãe que estão sempre fora de casa dando o maior duro, pra segurar a onda.

Mas, mudanças à parte, imagine o que significa, no domingo, o pai, que passou quase toda semana fora, pegar o filho pela mão e dizer: “Hoje a gente vai ao jogo.” O filho já fica todo bobo: a chata da irmã nem foi convidada. Daí o seu pai, com um sorriso malandro no rosto, completa: “E aqui está a camiseta do nosso time. De presente, pra você.” É a glória. Você vira do time do seu pai naquele mesmo instante, dez vezes mais fanático pelo time do seu pai do que o seu próprio pai.

Então vocês vão para o campo.

Como tem muita gente em volta, seu pai segura a sua mão toda hora, com medo que você (cabeça de vento) se perca na multidão. Aquela precaução, pra você que tinha passado quase toda a semana sem dar a mão pro seu pai, significa muito mais do que simples cautela.

Pronto. Você já está nas arquibancadas do estádio. E, de repente, passa o cara do cachorro-quente. Você  tem idéia da importância deste momento? O homem do cachorro-quente, cara leitora! Seu pai, mesmo distraído pelo radinho de pilha, chama o homem e pede um pra você. Sim, o seu pai faz isso. O pão está meio duro. A salsicha. completamente fria. Mas, mesmo assim, esse é o melhor cachorro-quente do mundo, que jamais na sua vida você vai comer igual. Com o refrigerante que seu pai compra é a mesma coisa. É a velha guaraná de sempre. Mas que diferença! O gás do refrí acompanha o ritmo do resto do estádio – que, a esta altura, já está borbulhando. É que o time do seu pai está entrando em campo. E o seu pai vibra. O time do seu pai saúda a torcida. E o seu pai sorri cúmplice pra você.

O time do seu pai dá o pontapé inicial. E o seu pai faz, discretamente, o sinal-da-cruz. Apesar das várias oportunidades, o time do seu pai chega ao final do pri¬meiro tempo sem fazer gol.

Intervalo. Você quer ir ao banheiro. Seu pai explica onde é. E você vai. Sozinho! Se a sua mãe estivesse ali, imagina, nunca que você iria sozinho. Mas você vai. E volta. Numa boa.

No segundo tempo, o time do seu pai continua jogando super bem. Mas nada de gol. Você vê seu pai gritar, roer a unha, mexer no cabelo, dizer palavrão, xingar o bandeirinha. E o time do seu pai que, afinal, não é o time do seu pai por acaso, não decepciona. Faz um golaço aos 37 minutos do segundo tempo. O estádio vem abaixo (você se assusta), seu pai grita muito (você se assusta), todo mundo começa a cantar o hino do clube (você se acalma).

Acaba o jogo e, no caminho de volta, você vem pertinho do seu pai – com a desculpa de também ouvir o radinho de pilha.

Você chega em casa, sua irmã tá lá com aquela cara de quem não viveu tudo o que você viveu e, evidentemente, você não comenta nada – que futebol é coisa de homem. Perfeito.

E o tempo vai passando, todo domingo é dia do pai – já que todo domingo tem jogo do seu time. E se o jogo é longe, em outro estado, em outro estádio, vamos à TV da sala, ou ao rádio do carro, sofrer juntos (o rádio do carro, até hoje, é imbatível no que se refere a trans¬missões de futebol).

Comigo, cara leitora, aconteceu exatamente assim. Meu pai, seu Salvador, o Giuliano, me deu a camisa (e a bandeira) do Inter, de Porto Alegre. Me levou um monte de vezes até o estádio Beira-Rio e eu acabei virando colorado doente (coloquei o número 5 na minha camisa em homenagem ao maior craque que vi jogar ao vivo, Paulo Roberto Falcão).

Quer dizer: compreenda seus irmãos quando eles virarem uns pentelhos tarados por futebol. É tudo des¬culpa. Eles estão apenas querendo passar mais tempo na companhia do pai de vocês. E entenda que eu fale sobre um assunto desses. É que este PS. foi dedicado a agosto, mês dos pais.

E agosto não é apenas o mês dos pais. É também o mês do aniversário do meu pai. Impossível resistir.

Giuliano, querido, um puta abraço. O Inter não anda lá essas coisas. Mas tudo bem. O melhor Inter, o Internacional campeão, é aquele que a gente assistia juntos lá na social do Beira-Rio. Esse Inter tá guardado pra sempre no coração. Coração que, por sinal, é vermelhinho, vermelhinho da silva.

E, pra encerrar este PS. do PS. com jeito de revista Placar, os primeiros versos do hino do Inter – versos que, na verdade, resumem tudo o que tentei dizer aqui a respeito de pais e filhos:

Papai é o maior,
papai é que é o tal,
que coisa louca,
que coisa rara,
papai não respeita
a cara.